Eu me chamo Sócrates, tenho dezesseis anos e, atualmente, moro no Bairro Assunção, na cidade de Brasilópolis. Meu melhor amigo é o Eugênio. Nós gostamos muito de jogar bola, e por isso, chamamos a garotada do bairro e montamos um time. Reuníamo-nos todos os sábados, à tarde, para jogar nosso futebol. De tempos em tempos jogávamos com os times de outros bairros. As vezes ganhávamos, as vezes perdíamos, mas não importava a vitória, o importante era que treinávamos nossas habilidades, gastávamos nossa energia e nos divertíamos um bocado.
Um dia o pai do Eugênio, um rico negociante e político da cidade, resolveu fazer um campo, com toda a infra-estrutura, para que o Eugênio pudesse jogar bola. Mas fez uma exigência:
- Só deixo o seu time jogar no campo, se ele vencer todas as disputas de futebol da cidade. Para que isso ocorra, você só deve chamar para o seu time, os garotos que forem bons atacantes. Eles é que vão trazer os bons resultados para o time.
Eugênio, fascinado com a possibilidade das vitórias e com as boas condições do campo, não pensou duas vezes e, a partir dali, cismou em só chamar para o seu time, jogadores que fossem bons atacantes. Seu pai tinha lhe pedido isso e ele, cegamente, resolveu obedecer.
Eu tentei alertá-lo para o fato de que nós não precisávamos aceitar aquela proposta. Poderíamos continuar com o time do jeito que era e que, modéstia a parte, era um time muito bom. Falei que só ter atacante no time, era algo muito restritivo e injusto com os garotos que eram nossos amigos. Que o mais importante era que a gente se complementava, na hora do jogo. Eu argumentava:
- Eugênio, para que um time seja bom, são necessários jogadores de todas as posições. É necessário que exista o jogador que fica na defesa, o meio-campo, os laterais, o goleiro e, é claro, o atacante.
Não adiantava, Eugênio era irredutível e exigiu a todos os jogadores que se esforçassem para serem bons atacantes, Senão ele não valorizaria e estariam fora do time. Ele falava:
- Meu pai disse que os jogadores que não são atacantes não merecem respeito, são burros. Não há lugar para eles no nosso time.
Alguns desistiram e acharam que não valia a pena o esforço, outros se tornaram atacantes medíocres e desperdiçaram suas verdadeiras habilidades. Outros, ainda, criaram tanta aversão pelo Eugênio que, de tempos em tempos, apareciam no campo só para xingar a turma ou para estragar alguma coisa do lugar. O Eugênio passou a ter graves problemas com esse pessoal, que ele excluiu, e eu temia até pela sua integridade física.
O Eugênio é o meu melhor amigo, e ele sempre foi legal comigo, mesmo assim, eu vou sair do time. Eu não me sinto bem ao ver as outras pessoas sendo menosprezadas. Para mim, todos tem algo com o que contribuir, independente de serem, ou não, bons atacantes e todos merecem uma chance de mostrar do que são capazes.
Eu, como bom amigo que sou, vou continuar insistindo para que o Eugênio seja mais humano e aprenda a respeitar a qualidade de todos. Porque sei que, no fundo, ele não é má pessoa, ele apenas se deixou iludir pelas imposições de seu pai. Que só quer que o time vença para fazer propaganda das vitórias e usar isso na política, e não está nem aí para o time, para os outros garotos e muito menos para o Eugênio.
Espero, sinceramente, que o Eugênio caia em si e que nós possamos voltar a ser aquele time em que todos aprimoravam suas habilidades, se ajudavam e se divertiam um bocado.
